segunda-feira, 11 de agosto de 2008

PMERJ S.A.

Leonardo Allevato Magalhães

2º Tenente PM RG 54567

Há quinze anos digo que os oficiais da Polícia Militar que pretendessem ingressar em uma universidade deveriam optar por um curso que não o de Direito. Afora aqueles que fazem da Corporação trampolim para outros concursos públicos - e, infelizmente, isso é uma realidade crescente, mormente em virtude dos baixos salários pagos aos policiais militares - oficiais que almejassem atingir os mais altos cargos deveriam se especializar em cursos voltados, principalmente, para a área administrativa.

O título desse artigo fala por si só. Não há mais como deixar nossa Corporação a mercê de decisões políticas que em vez de beneficiarem o consumidor final - a própria população do Estado do Rio de Janeiro - contribuem para o enriquecimento de plataformas políticas em eleições vindouras.

A Polícia Militar É e deve ser administrada como uma grande empresa, cujo produto de "comercialização" é a Segurança Pública.

A Segurança Pública deve ser uma política de Estado e não uma política partidária; destarte, manter-se-á ao longo dos governos, beneficiando única, exclusiva e incondicionalmente a população do Estado do Rio de Janeiro.

Tome-se como exemplo qualquer grande empresa e veremos que a estrutura administrativa é totalmente semelhante e, quiçá, até mesmo mais bem estruturada (ainda que mal organizada), que essas empresas. Falta a PMERJ, além da desvinculação política - não em termos estruturais, mas sim funcionais, um administrador que, com pulso forte e de forma empreendedora e sem se basear simplesmente no empirismo, conduza-nos a uma nova era administrativa calcada em conhecimentos teóricos que, aplicados na prática, nortearão as tomadas de decisões necessárias no dia-a-dia corporativo.

Perfeitos são os manuais que tratam da Administração Militar, todavia, faz-se mister uma atualização e adaptação desses conhecimentos em relação ao atual mundo corporativo privado, uma vez que se trata de um universo de empresas que primam pelo aumento da lucratividade como forma única de se manterem no mercado. Logicamente, a empresa Polícia Militar não aufere lucros pecuniários, porquanto se trata de uma empresa pública, porém há que se considerar o lucro dentro de nossa empresa como sendo o oferecimento de segurança total a nossa população. A partir do momento que a população passa a se sentir insegura estamos falhando em nossa missão primária.

Tal projeto trata apenas de uma profunda mudança de mentalidade a fim de que se possa revigorar e desemperrar as engrenagens que movem nossa Corporação.

Algumas medidas poderiam ser tomadas para que, além da reforma administrativa - não em termos estruturais, mas sim de operacionalização dessa estrutura - houvesse uma mudança da imagem da Corporação junto à população e ao seu próprio público interno, para que haja um resgate da credibilidade que há muito já foi perdida. Eis algumas delas:

  • Adoção de um planejamento estratégico divulgado a todos os níveis da Administração Militar com minuciosa análise dos pontos fortes e fracos e das oportunidades e ameaças ao perfeito funcionamento de cada Organização Policial Militar por si só e de forma conjunta dentro da estrutura corporativa.

  • Missão e visão. Dois conceitos corporativos a serem definidos, divulgados e massificados nos policiais militares de modo que todos unam forças em prol de um único objetivo.

  • Divulgação de uma arrojada campanha de marketing a fim de enaltecer e divulgar o lado "bom" dos serviços prestados à população para que se contraponham e se sobreponham à imagem negativa massificada pelos mais diversos meios de comunicação que "maximizam" as atitudes negativas e que são inerentes a apenas um pequeno número de policiais militares.

  • Melhoria do marketing interno (endomarketing). A exemplo do que acontece no treinamento militar das Forças Armadas em tempos de guerra, o policial militar deve ter apenas uma única coisa na cabeça: sua missão enquanto tal. Não podemos ter o "funcionário" da empresa falando mal da própria empresa e, pasmem, isso acontece em toda a estrutura vertical da Corporação.

  • Treinamento, treinamento, treinamento. Não apenas o treinamento técnico - tiro policial, técnicas de abordagem etc. - mas também o treinamento de outras habilidades necessárias à lida com o público - atendimento, gerenciamento, línguas estrangeiras etc.

  • Após o resgate da credibilidade, associação da marca PMERJ S.A. a outras empresas a fim de formar parcerias funcionais e aumentar a colaboração da sociedade na prevenção e combate aos mais diversos crimes.

  • Total reestruturação do processo seletivo de policiais militares. Estamos contratando mal, a fim de atender a demanda de mais policiais e estamos tendo problema em médio e longo prazo. Os processos de exclusão do policial militar do serviço ativo (demissão, reforma etc.) com tão pouco tempo de serviço oneram absurdamente o erário. Selecione-se mais rigorosamente e isso refletirá diretamente na diminuição dessas exclusões.

  • Valorização dos recursos humanos: o discurso aqui não será em torno do aumento de salários, mas sim em relação à agregação de valores à carreira profissional: melhoria constante das unidades de saúde, acompanhamento psicológico constante, programas de prevenção de doenças que diminuam a vida útil profissional do policial militar, treinamento, dentre outros. Note-se que todos os valores sugeridos dizem respeito ao policial militar enquanto ser humano e não à sua logística de trabalho.

  • Alocação de policiais especializados: policiais militares com cursos de especialização devem, incondicionalmente, ser alocados nas respectivas unidades. Sendo assim, policiais com o curso de Adestramento de Cães devem estar lotados na CIPM Cães, os que possuem o curso de Operações Especiais devem estar lotados no BOPE. Além disso, o aproveitamento de cursos extras deve ser considerado de forma a otimizar as atividades meio e fim.

  • Criação de um centro de pesquisas em Segurança Pública, a fim de estudar os mais diversos aspectos dessa área, desde o modus operandi de criminosos até o comportamento do policial nas mais diversas situações de modo que se possam fornecer subsídios teóricos a futuras ações de segurança pública. Tal centro funcionaria com equipes multidisciplinares de estudo - sociólogos, antropólogos, psicólogos e demais áreas afins - porém, sempre sob a batuta de oficiais policiais militares que são aqueles que possuem o conhecimento técnico da área.

Infinitas seriam as sugestões para a reestruturação funcional do sistema policial militar; não se pode mais ficar administrando o caos, cobrindo certos buracos e descobrindo outros, tal qual um cobertor curto.

Há que se mexer nessa estrutura, de modo a desemperrar as engrenagens que movem essa bicentenária Corporação e fazer valer novamente a autoridade intrínseca em cada homem fardado, não mais pela força e pela coerção, mas pelo resgate da credibilidade daqueles que são os consumidores finais do nosso produto: a população do Estado do Rio de Janeiro.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Um criminoso em série?

Sinceramente, já estou cansado de fornecer as mesmas informações aos já não tão poucos encarregados dos sucessivos procedimentos a que tenho respondido em face de minhas postagens neste e em outros blogs pessoais (nunca, sob o "confortável" manto do anonimato).

Sei que incomodados e seus prepostos (reais ou pretensos) têm se dado ao trabalho de digitar com freqüência os endereços através dos quais podem manter-se leitores assíduos do que escrevo (quem sabe até eu já tenha sido adicionado aos "favoritos"), fato que, confesso, não chega a despertar em mim honra ou satisfação alguma.

Após depoimento em mais um instrumento inquisitorial de natureza castrense, ofertando, é claro, as respostas de sempre, proponho uma solução definitiva para o "problema".

Resumindo e sendo bastante objetivo, acho que o governo de Sérgio Cabral Filho tem sido desastroso, o que me leva a crer que tal cidadão não tem preparo suficiente para o exercício do cargo para o qual foi eleito.

Acredito ainda que os rumos adotados pelo delegado José Mariano Benincá Beltrame à frente da pasta de segurança pública têm produzido resultados desastrosos para a sociedade e benéficos apenas a interesses classistas, do ponto de vista da mantença de statu quo e do alargamento de pretensos poderes de delegados de polícia civil.

Quanto aos rumos da polícia ostensiva e da polícia investigativa, conseqüentes ou não das ações (e omissões) do delegado Beltrame, vejo distanciamento cada vez maior do interesse que deve presidir todas as ações emanadas das mesmas. Falo, é claro, do interesse público.

Por outro lado, quando exercito meus "achismos" (sic), o faço com a utilização de recursos de ordem privada (computador, conexão, etc) e manifesto apenas e sinceramente o que sinto em relação ao que ocorre e ao que deveria (ou não) ocorrer no âmbito da administração pública da unidade da federação em que resido.

Do ponto de vista do esteio legal que, em minha modesta opinião, ampara o que faço, costumo lançar mão do art 5º, inciso IV, da Carta Constitucional de 1988. Claro que poderia fazer menção a diversos outros dispositivos, presentes ou não na Carta (por vezes, menciono ainda o "Pacto de San Jose da Costa Rica"), mas o breve texto que pretendo escrever ficaria demasiado chato.

Não tenho dúvida alguma de que os direitos e garantias fundamentais descritos no art. 5º da C.F. não são absolutos, devendo ceder a outros dispositivos sempre que do conflito entre ambos restar necessidade de tutela de direito maior.

Por outro lado e já finalizando, lendo o caput do mesmo art 5º não consigo me convencer (garanto que até já tentei) de que a eventual valoração quanto à necessidade de imposição de reprimenda (seja qual for a instância) derivada não apenas do que escrevo, mas da condição profissional que ainda detenho, seja algo conforme com a ordem constitucional inaugurada no Brasil, ao menos a partir de 1988.

Não consigo aceitar que não me seja permitido manifestar o que penso da mesma forma que qualquer outro cidadão, seja qual for sua condição profissional, religião, sexo, etc.
Sendo assim, façam o que fizerem e ainda que convençam a quem quer que seja de que minha conduta me leva a ser um "criminoso (militar) em série", vou continuar a manifestar o que penso.

Sugiro mesmo que por uma questão de economia processual, optem pela imposição de prisão em flagrante, pois, sob o prisma da manifestação não apócrifa do pensamento, oportunidades continuarão a não faltar.

Por outro lado, caso desejem optar por caminho distinto, dou minha palavra de que cessarei manifestações no tom descrito sob a satisfação de ao menos uma de duas razoáveis, simplórias e, ouso dizer, civilizadas condições.

Convençam-me de que estou errado quanto às minhas convicções acerca da lástima que tem sido o governo Sérgio Cabral e a gestão da segurança pública fluminense ou ao menos de que, do ponto de vista constitucional, minha condição profissional impõe, por si só, restrições ao gozo do direito consagrado no art. 5º, inciso IV, da Carta Magna de 1988.

Simples assim!

Dou minha palavra!

Wanderby Medeiros.

www.wanderbymedeiros.blogspot.com

O Enigma do Iceberg



Rebatendo as críticas de que a atual política de segurança não estaria surtindo resultados, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse:

- O que não podemos é ficar parados. Podem dizer que estamos enxugando gelo, mas se não enxugarmos o gelo o Rio de Janeiro vai virar um grande iceberg. Então, nossa obrigação é combater essa tirania com inteligência funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana para antecipar ações dos traficantes - disse o secretário.

Comentário: Até onde sei, a expressão metafórica “enxugar gelo” é comumente utilizada para indicar políticas, programas, atividades, ações etc, que não funcionam ou que funcionam tão somente como medidas paliativas sem qualquer eficiência ou eficácia. Ora, enxuga-se então o gelo, numa tentativa em vão, para evitar o seu derretimento que no sentido figurado significaria o caos. Quando o nosso secretário diz que “se não enxugarmos o gelo o Rio de Janeiro vai virar um grande iceberg” o mesmo comete um grave equívoco, pois se não o enxugarmos ele simplesmente derreterá. Por outro lado, a expressão iceberg pode denotar também um enorme bloco ou massa de gelo que se desprende das geleiras existentes nos calotas polares, originárias da era glacial, há mais de cinco mil anos. De cada iceberg, apenas cerca de 10% da sua massa emerge a superfície. Os demais cerca de 90% permanecem submersos, donde o enorme perigo que conferem especialmente à navegação. Em se tratando de dimensões lineares (mais especificamente, notadamente, a altura) tem-se que, em média, aproximadamente 1/7 do iceberg aflora, emerso, à superfície, enquanto os demais 6/7 constituem a porção oculta, o lastro submerso da massa polar flutuante. Nesse caso o esforço de enxugar o gelo se confunde com a idéia de evitar o seu próprio derretimento. A figura do iceberg funciona então como sendo a antítese do gelo derretido, ou seja, a expressão maior do caos. Será que o nosso secretário quis dizer que se o governo não adotasse a política do “enxugar gelo” (conjunto de medidas paliativas, sem qualquer eficiência ou eficácia), diminuiria a parcela oculta das mazelas que, no âmbito da segurança pública, se encontram totalmente submersas e afetam a vida da população fluminense? Será um ato falho?

Movimento Segurança Cidadã – BI nº 05

Ano I – nº. 5, 4 de agosto de 2008

Uma nova Polícia, feita por Policiais Cidadãos.

OS BASTIDORES DA SEGURANÇA NO RIO DE JANEIRO

Sumário:

Editorial: "Ao Povo do Rio de Janeiro”

1º Artigo: PMERJ S.A.

2º Artigo: A pusilanimidade já foi mais bem educada.

3º Artigo: 190, O Trote Oficial no Rio de Janeiro.

Para saber mais: Sites e blogs de interesse.

ACESSE:

www.policiainteligente.blogspot.com

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Para não esquecer, jamais.




63º Aniversário: Em 06 de agosto de 1945, Hiroshima e o Mundo conheciam o poder da bomba atômica

Em 30 de abril de 1945, em meio à tomada de Berlim pelas tropas soviéticas, Adolf Hitler cometia suicídio, e o almirante Doenitz formava novo governo, pedindo o fim das hostilidades. A capital alemã é ocupada em 2 de maio. Alguns dias depois, no dia 7, a Alemanha rendia-se incondicionalmente, em Reims.

A Segunda Guerra estava praticamente terminada. Os conflitos restantes aconteciam no Pacífico. E foi no Japão, mais precisamente em Hiroshima e Nagasaki, que a humanidade conheceu a mais terrível criação da tecnologia. Em 06 de agosto de 1945, era lançada a primeira bomba atômica em alvo humano.

Hiroshima, 6 de agosto de 1945 - 8h45min

A Guerra estava no fim, e Hiroshima permanecia intacta. O governo incentivava todos a manter as atividades cotidianas. Nesse momento, os japoneses ouviram o alarme indicando a aproximação de um avião inimigo. Era um B-29, batizado de "Enola Gay", pilotado por Paul Warfield Tibbets Jr. Do avião, foi lançada a primeira bomba atômica sobre alvos humanos. Foi batizada "Little Boy".

Instantaneamente, os prédios desapareceram junto com a vegetação, transformando Hiroshima num campo deserto. Num raio de 2 quilômetros, do epicentro da explosão, tudo ficou destruído. Uma onda de calor intenso, emitia raios térmicos, como a radiação ultravioleta.

Os sobreviventes vagavam sem saber o que havia atingido a cidade. Quem estava a um quilômetro do epicentro da explosão, morreu na hora. Alguns tiveram seus corpos desintegrados. O que aumentou o desespero dos que nunca vieram a confirmar a morte de seus familiares.

Quem sobreviveu, foi obrigado a conviver com males terríveis. O calor intenso levou a roupa e a pele de quase todas as vítimas.
Vários incêndios foram causados pelos intensos raios de calor emitidos pela explosão. Vidros e metais derreteram como lavas.

Ao longo do dia, caiu sobre Hiroshima, uma chuva preta, oleosa e pesada. Essa chuva continha grande quantidade de poeira radioativa, contaminando áreas mais distantes do epicentro. Peixes morreram em lagoas e rios, e pessoas que beberam da água contaminada tiveram sérios problemas durante vários meses.

O cenário da morte era assustador. As queimaduras eram tratadas com mercúrio cromo pela falta de medicamento adequado.

Não havia comida e a água era suspeita. A desinformação era tanta que muitos japoneses saíram de suas províncias para tentar encontrarem seus familiares em Hiroshima. Essas pessoas, corriam grave risco pós-bomba: a exposição à radiação.

Não se sabe exatamente porque Hiroshima foi escolhida como alvo inaugural da bomba atômica. Uma explicação considerada plausível, é pelo fato de a cidade estar centrada em um vale. As montanhas fariam uma barreira natural, o que ampliaria o poder de impacto da bomba. Conseqüentemente, os japoneses conheceriam a capacidade de destruição nuclear com mais precisão.

Outra explicação é baseada no fato de Hiroshima ainda não ter sido atingida por nenhum ataque. Isso, aliado à proteção das montanhas, daria a medida exata da destruição da bomba nunca antes testada.

De concreto, sobraram os horrores de uma arma nuclear, com potência equivalente a 20 mil toneladas de dinamite. Ainda hoje, passados 58 anos da explosão da primeira bomba atômica, o número de vítimas continua sendo contabilizado, já ultrapassando 250 mil mortos.

Fonte: http://www.unificado.com.br/calendario/08/bomba_hiro.htm

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

As cenas que se fixaram para sempre na minha memória


Por Antonio Carlos Costa

Presidente da ONG Rio de Paz


Os números da violência no Rio de Janeiro têm rosto. Por trás das estatísticas há uma multidão de gente que se foi e de gente que ficou. Homens e mulheres cujas vidas estão marcadas para sempre. Vivemos anos de insanidade, indiferença e maldade. Passo agora ao relato de parte do que vi e ouvi nos cemitérios, hospitais e lares enlutados que tenho visitado, desde que comecei a ver o que antes apenas tomava conhecimento de ouvido.

GABRIELA SOU DA PAZ

O meu primeiro encontro com o fundador do movimento Gabriela Sou da Paz deu-se em razão de um pedido que havia feito ao meu amigo de longa data, Jorge Antonio Barros. Estava começando a luta do Rio de Paz e queria saber quem era carioca do bem e com quem poderia contar. Ele sugeriu que procurasse o Carlos Santiago. Acontece que o Carlos Santiago e a Cleide Prado, os pais da Gabriela, morta numa troca de tiros no metrô da Tijuca, não são de fazer com que as pessoas fiquem com pena deles. São capazes de rir, mantêm-se incansavelmente nas ruas na luta contra a impunidade e quase todos os dias levam palavras de encorajamento para pessoas que enfrentaram o drama pelo qual passaram. Porém, aqui e ali, ambos deixam passar algo da dor latente dos seus corações. Em um encontro sobre violência no ano passado na Casa Rui Barbosa, para o qual fomos convidados a falar como representantes e militantes da sociedade civil, eu o ouvi dizer para todos: “Engana-se quem pensa que o tempo ajuda um pai esquecer-se de um filho que foi assassinado. A morte da minha filha Gabriela parece que ocorreu ontem”, afirmou Santiago. No nosso primeiro contato, no centro do Rio, ele já dissera para mim: "Levaram meu maior bem".

A VIÚVA QUE PERDEU SEU ÚNICO FILHO

Conheci a dona Zely no enterro do seu filho, que fora assassinado no Andaraí. Corria a cerimônia fúnebre quando tomei fôlego e aproximei-me da mãe da vítima. Procurei me identificar e ela prontamente me recebeu. Eis o que ela falou para mim ao lado do caixão do seu filho: “Esse filho foi fruto de uma espera de 18 anos. Eu não conseguia engravidar. Quando o meu filho tinha 8 meses de vida meu marido morreu”. A morte do seu filho representou para ela - a perda do filho único de uma viúva. Quando o caixão estava para ser fechado eu a ouvi dizer: “Eu te amo meu filho. Você foi embora cedo, mas valeu a pena ter tido você”. Outro dia ela deixou um recado aos prantos na minha secretária eletrônica. Ela havia acabado de descobrir a autoria do crime - a nora é a acusada de ser a mandante - e percebia a lentidão da justiça.

A ROSA 6.001

Era o final de 2007. O Rio de Paz havia acabado de realizar um protesto na praia de Copacabana. Criamos a imagem surreal das 6.000 rosas penduradas de cabeça para baixo a fim de apontarmos para o absoluto absurdo das 6.000 vítimas de homicídio (que na verdade foram aproximadamente 10.000, pois só trabalhamos naquela data com homicídio doloso). Naquele mesmo dia morria, numa das trocas de tiros entre policiais e traficantes, a menina Fabiana, que brincava dentro de casa na frente do avô.

Cheguei ao cemitério do Caju quando o caixão já se encontrava do lado de fora da capela. A primeira cena com a qual me deparei foi a da avó gritando: “Fabiana, sai daí. Vamos para casa”. Ela gritava como se a sua voz pudesse dar vida ao corpo da neta. Aproximei-me da mãe. Tentei consolá-la. Ouvi dos seus lábios, em meio ao seu pranto, o apelo desesperado de uma mãe que aguardava o milagre que não aconteceu e que eu não podia realizar: “Moço, tira a minha filha dali. Ela não é para estar ali. Eu tinha um casal de filhos, agora só tenho um filho”. Em seguida, desmaiou.

A Fabiana é enterrada e no caminho de volta vejo-me ao lado de dois homens inconsoláveis. Aproximo-me deles. Identifico-me. Eles pronta e educadamente me recebem. Descubro que estou diante do pai e do avô que presenciou a cena do crime. Ouço o seu relato dramático: “No dia da sua morte a minha neta viu o seu protesto na televisão. Ela comentou com a minha esposa. ‘Veja vovó, 6.000 rosas porque 6.000 pessoas foram assassinadas”. Ao que a avó respondeu: ‘É minha filha, nós estamos vivendo em um mundo muito mau’. A avó não poderia sequer imaginar que naquele mesmo dia, dentro de algumas poucas horas, a sua neta haveria de fazer parte da trágica estatística. Ao saber da morte da neta, a avó no seu pranto falou: “A minha neta é a rosa 6.001”. O avô contou-me o que aconteceu no trajeto para o hospital. Não foi fácil sair da comunidade, pois alguém furara com tiros os pneus do carro que chegara para prestar socorro. A menina morreu em meio à sua inocente súplica, baseada no que Cristo ensinou aos seus discípulos: “Pai nosso que estás nos céus...”.

PERDEMOS CANTO DO SABIÁ

Era uma terça-feira à noite e uma advogada da OAB solicitou-me por telefone que comparecesse ao enterro de um jovem que fora assassinado por policiais militares. Chego ao enterro no dia seguinte e deparo-me com um ônibus repleto de jovens evangélicos, experimentando um misto de choque e incompreensão, pois morrera um rapaz excelente, membro de uma banda de música que gostava de cantar hinos de louvor a Deus. Aproximo-me do pai da namorada, um policial, que pôde testemunhar para mim sobre o caráter do rapaz: “Eu jamais deixaria minha filha de 15 anos namorar um rapaz em quem eu não confiasse. Ele era um rapaz maravilhoso”. A mãe da moça declarou: “Quando por algum motivo falávamos alguma coisa para orientá-lo ele costumava ouvir abaixando a cabeça”. Houve um pastor que disse para mim: “Eu conheço toda a família dele. O menino era bom. O que fizeram com ele foi uma maldade". Um outro pastor afirmou em tom de desabafo: "Não agüento mais fazer enterro de gente assassinada”. O amigo de infância declarava: “Eu nunca o vi envolvido com coisa errada”.

Aqueles policiais mataram William de Souza Marins, um menino inocente de 19 anos. Ficaram para trás um casal de irmãos inconsoláveis e os pais. Gente mansa e de coração humilde. A mãe lamenta a morte do sabiá de Deus (sabiá era o seu apelido), pois segundo ela o filho passava o dia inteiro cantando os hinos evangélicos que conhecia. Foi essa a pessoa que os policiais mataram, com um tiro na perna, outro no peito e um no alto da cabeça, fazendo-se de surdos para os apelos da vítima: “Eu sou evangélico, moro na comunidade”. Como se não bastasse isso, arrumaram uma mochila e nela colocaram 158 papelotes de cocaína, uma pistola 765 e uma granada, a fim de caracterizar a morte como resultante de um confronto entre polícia e marginal.

A AGONIA NA ANTE-SALA DA MORTE

Era uma manhã quando ao consultar meus e-mails descubro que havia um recado do amigo coronel da Polícia Militar, Carballo. Estava escrito algo mais ou menos assim, “Ouça isso”. Era a entrevista do Paulo Roberto, pai do menino de 3 anos, morto na frente da mãe por policiais militares. Eu estava de cama e exausto das campanhas do Rio de Paz. Havia separado aquele dia para ficar em casa. Mas não pude. As declarações do pai me levaram a correr para o hospital onde ele e seu filho (já em estado de morte cerebral) se encontravam.

Apresento-me aos familiares que tratam de conduzir-me ao pai. Conversamos por aproximadamente uma hora. Procuro oferecer-lhe a única consolação de que dispunha: “Cristo disse no evangelho: ‘Deixai vir a mim os pequeninos, e não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus’”.

Subo para o quinto andar do hospital onde se encontrava o menino, familiares, amigos e a mãe. Trato de consolá-la. Ela apresenta-me o relato dos seus últimos momentos ao lado do filho: “Quando vi o que estava acontecendo eu pedi para que ele se agachasse. Ele tão somente dizia, por que mamãe, por que mamãe?” Depois, o corpo desfalecido do filho, a roupa encharcada do sangue daquele que ela mesma gerara e a declaração do médico de que o filho havia levado um tiro na cabeça, que entrara pela nuca e alojara-se na fronte.

Alguém aparece e pede para que nos dirijamos para uma sala a fim de fazermos uma prece. Eu não podia ter idéia de que a sala nada mais era do que o exato local onde o João Roberto se encontrava. A mãe só gemia. O pai, aos prantos, em voz alta, dizia: “Meu filho, como eu te amo. O que fizeram com você? Eu nunca vou te esquecer”. E lançou-se sobre o leito no qual o menino estava. A avó paterna levanta o lençol que cobria o corpo do João Roberto, pelo qual podia-se ver que ele ainda respirava, e exclama: “Veja, ele está cheio de fios no seu corpo”. Ao fundo, os médicos assistiam todo o horror estupefato e visivelmente arrasado.

Essa semana, no dia 29 de Julho, eu estive na casa dos pais do João Roberto, na Tijuca. Estava programada para aquele dia uma festa que não pôde ser realizada. O momento de alegria para o qual o pai se preparara fazendo hora extra no táxi a fim de cobrir as despesas que excedia o que seu salário regular permitia realizar. Era para ser comemorado o aniversário de 4 anos do João Roberto. Passei ali 3 horas, tentado enxugar as lágrimas dos pais, da avó materna e as minhas. Era o segundo dia mais difícil de suas vidas.

O ENTERRO DO POLICIAL MORTO NA FONTE DA SAUDADE

O envolvimento cívico com essa causa, tem colocado-me em contato com vários policiais, civis e militares. Meu pai foi policial civil e terminou sua carreira na Polícia Federal. Ele morreu faz 3 anos. Deixou para uma viúva e três filhos um modesto apartamento de dois quartos no bairro de Santa Rosa em Niterói. No encontro com esses policiais tenho reencontrado o meu pai.

A morte ignóbil sofrida recentemente por dois policiais na Fonte da Saudade, levou-me mais uma vez para as ruas e para o cemitério. Fomos para a Fonte da Saudade onde fixamos no local do crime, duas cruzes com os nomes dos policiais e uma faixa com a seguinte frase: “Mataram aqui dois seres humanos que trabalhavam em condições desumanas”. Antes disso, porém, participara da cerimônia que me fez irromper em prantos. O enterro de um dos policiais. Emoção, revolta e dor eram visíveis nas fisionomias dos oficiais tarimbados ali presentes. O comandante do policial morto chorava.

Vem a esposa. Ao ver o corpo do marido no caixão sente ânsia de vômito. Ela sai. Retorna. Só que agora com os filhos. A filha de 13 anos entra e, ao levantar a cabeça e identificar a face do pai morto, no caixão, recua e anda para trás, fugindo da cena que seus olhos recusava-se a admitir. Começa a gritar: “Meu pai, quem matou meu pai?” O filho de 6 anos dá a volta e com o rosto todo molhado de lágrimas coloca-se ao lado do corpo do pai e o afaga. Um oficial da Polícia Militar, tido como um homem duro, sai visivelmente comovido e transtornado. Eu o faço parar e falo-lhe ao ouvido: “Procure administrar tudo isso com amor”.

Esse é o Rio de Janeiro desse início de século XXI. O Rio de Janeiro de sempre. Rio de sangue. Violento. Sedento de morte. Que faz seus moradores viverem ao mesmo tempo perante o cenário geográfico mais exuberante e o contexto social mais aterrorizante. Por que tantas mortes e como evitá-las? São muitas as respostas. Nós já as conhecemos. O Rio de Janeiro não precisa de mais análises sobre segurança pública. Muito menos sair em busca de soluções, pois essas também já existem. Tudo isso tem sido estudado exaustivamente e com competência. Poderia mencionar vários documentos com propostas exeqüíveis para a diminuição da violência. O que nos falta? Seja qual for a resposta que você e eu venhamos a dar para essa pergunta vital, uma coisa é certa: ela não deve se restringir apenas à vida dos outros, mas deve envolver a nossa vida. A sua e a minha - pois todos somos moradores desse estado, e todos, de uma forma direta ou indireta, podemos colaborar para o mal ou para o bem do lugar onde moramos.

domingo, 3 de agosto de 2008

Ao Povo do Rio de Janeiro:

Cerca de um ano atrás, com a finalidade de resgatar a cidadania, a dignidade pessoal e profissional dos integrantes da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, bem como reduzir dificuldades na área de segurança pública mediante propostas de ações governamentais, um grupo de integrantes da Polícia Militar do último posto da Corporação, denominados "Coronéis Barbonos", travejado na experiência profissional adquirida ao longo de mais de trinta anos de serviço, elaborou manifesto denominado "Pro lege vigilanda" (Para a vigilância da lei), de cunho estritamente institucional, contendo as principais e urgentes necessidades da Corporação e de seus Componentes.

O documento discorria sobre doze tópicos, consolidados nos princípios de valorização do servidor público policial militar, profissionalização, racionalização de recursos e fortalecimento institucional, todos exeqüíveis e extremamente essenciais para a implementação de um projeto de segurança pública concreto e viável, tanto que, alçado à análise do Chefe do Executivo Estadual, teve pronto assentimento, por entender que por aquelas doze proposições passava a recuperação da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, órgão responsável pela polícia administrativa da ordem pública no ordenamento constitucional e infraconstitucional vigentes.

Naquele instante já alertávamos para o fato de que a funcionalidade e operacionalidade dos sistemas policiais, sempre jogadas para um plano secundário, achavam-se agonizantes; que os estertores de uma Corporação subjugada e sem brio se faria ouvir na sociedade, preliminarmente levando às comunidades carentes o terror de uma política de segurança sem os requisitos mínimos de inteligência e alicerçada unicamente no belicismo descabido, posteriormente impondo às demais camadas da sociedade o medo, a desconfiança e o luto pelos muitos filhos sacrificados em razão do despreparo e da pressão funcional e emocional a que são submetidos os profissionais de segurança.

Urgia uma radical mudança de postura na condução da política de segurança pública, pois é fato que a que hoje está em prática, a qual já se arrasta por muitos anos e desgovernos não atende aos anseios da população, tampouco traduz as aspirações da sofrida família policial-militar, ao menos a majoritária parcela de abnegados preocupados em servir e proteger, já que além de nossas reputações maculadas pela desconfiança da população e pelo contínuo achincalhamento promovido pelos meios de comunicação - não sem razão, admita-se - também nos vemos vítimas e reféns do atual estado de barbárie em que vivemos.

Estamos certos de que, ao contrário do que indica a desconstrução da imagem institucional mediante a série de gravosos e lamentáveis fatos envolvendo policiais militares com toda sorte de crimes, ainda não chegamos ao fundo do poço, mas tal não tardará, pois quando o cidadão deixa de ter o Estado como seu protetor e passa a vê-lo como algoz, quando a desconfiança impera, quando os agentes da lei sentem-se sem credibilidade e incapazes de mudar o estado de coisas que os afligem, as conseqüências tendem a revelar um quadro de completo caos social, que somente o desprendimento de um governo inteiramente voltado à coisa pública, avesso a picuinhas e jogadas de bastidores daqueles que querem prolongar o status quo pode reverter.

Quando de nosso manifesto, fomos afastados e defenestrados da Corporação, como se nosso posicionamento fosse contrário ao interesse social e institucional, mas tal injustiça não esmoreceu nossa crença de que é preciso mudar radicalmente alguns conceitos, que as proposições por nós outrora firmadas são essenciais para a retomada do caminho da ordem pública, bem como sabemos que determinadas medidas irão requerer tempo para que logrem seus objetivos, enquanto que outras terão efeito imediato; da mesma forma é certo que algumas exigirão um esforço contínuo do governo, mediante planejamento e previsões orçamentárias, já outras se realizarão mediante simples ato do executivo, entretanto, todas necessitam de uma ação única e imediata, para que não se perca mais tempo.

Esclareça-se que sempre estivemos e estamos à disposição do Estado do Rio de Janeiro e de sua população, colocando nossa larga experiência a seu serviço.

Nosso manifesto, longe de configurar um ato de rebeldia ou de insubordinação, foi um grito de alerta e teve o caráter de rever conceitos defasados e garantir melhor contraprestação de serviços para o povo fluminense, o que é nossa missão.

Não podíamos ser subservientes e estéreis, pois nunca agimos assim ao longo dos nossos mais de trinta anos de carreira policial-militar.

O quadro atual demonstra que não estávamos errados.


HILDEBRANDO Q. ESTEVES FERREIRA - CORONEL DE POLÍCIA

PAULO RICARDO PAÚL - CORONEL DE POLÍCIA

LEONARDO PASSOS MOREIRA - CORONEL DE POLÍCIA

FRANCISCO CARLOS VIVAS - CORONEL DE POLÍCIA

RONALDO ANTONIO DE MENEZES - CORONEL DE POLÍCIA